Um menino disse: “O Clube universitário me pegou de calças
curtas...”, e a frase não teve qualquer sentido figurado.
Efetivamente, quando
da sua fundação em janeiro de 1963 , ele não passava realmente de um menino
entrando no curso primário, de calças curtas, joelhos quase sempre sujos e
arranhados, cabelo cortado no estilo “americano”, pirulito de groselha ou
sorvete do Mazzuco à boca e esperando na fila interminável do Trenzinho Coca-
Cola da Semana Universitária.
Não lhe passava nada pela cabeça, senão a expectativa de
poder olhar a cidade e as pessoas pela orgulhosa ótica do trenzinho. Pelo menos
, é desta sensação que sua memória se recorda, daquelas tardes ensolaradas.
Já no trenzinho em movimento, as brincadeiras com os
transeuntes, a inocente algazarra originada da sensação de ser notado, a sua
buzina imitando Maria-fumaça e a vontade de nunca parar este trenzinho,
faziam tudo parecer fascinante. E a versão moderna levando romeiros pela
cidade. Quem teria tido tal idéia? Ela parecia fabulosa, simples e fantástica.
Ela o conquistou realmente. Quem inventou aquilo merecia um prêmio, pensava
meio feliz, meio decepcionado com o termino da “viagem”.
Hoje, trinta anos passados, até presidente do clube ele já
foi; muitas perguntas tão simples quanto as feitas naquela época continuam lhe
povoando a cabeça, sem resposta racional. Sempre lhe pedem para respondê-las,
mas é preferível contar histórias a promover complicados debates e simpósios
sobre algo tão simples.
(...) Infelizmente, o caráter estudantil e sazonal da Semana
sempre imprimiu ao CUT um estilo informal demais às exigências dos
historiadores mais rigorosos, já que muitos documentos importantes se perderam
na migração da sua sempre transitória sede anual. Apesar disto, muito material
é disponível para pesquisa em velhos cartazes, ofícios e documentação
burocrática, de posse zelosa do José Eli Costa, nas entrevistas realizadas
pelo Paulo Rogério Rocco e nas pesquisas do José Edson Martinelli.
Procurou-se, então, inserir, de maneira sintética e abrangente, o material
disponível, deixando com isso que ele conte a própria história.
Esperamos oferecer modesta contribuição à compreensão do
fenômeno Clube Universitário. “Fenômeno”, porque inédito, pioneiro e resistente
a tantos anos, atravessando os turbulentos anos sessenta, aos resistentes anos
setenta e até mesmo aos apáticos e conformistas anos oitenta. Pioneirismo e
ousadia iniciais, história conturbada com pitadas de estórias criadas, emoções
vividas, dificuldades ultrapassadas, experiências não totalmente transmitidas,
coesão de opostos, em uma longevidade quase inexplicável, conferem ao CUT este
caráter heróico, mítico até, mas sobretudo pitoresco, que se pode notar
facilmente na fala dos muitos que atuaram no clube ao longo destes anos.
Aquele menino de calças curtas hoje tem mesmo a sensação de
que jamais saiu daquele trenzinho. Viu, como num sonho, tudo passar pelos seus
olhos e tudo ainda lhe parece fascinante. O trenzinho teimosamente desafia até
mesmo as advertências de Cronos, o implacável deus do redemoinho do Tempo. Seu
combustível parece não se esgotar. A explicação disto parece, a esta altura,
realmente não ter a mínima importância, esmagada então pelo seu peso de trinta
anos. A idéia foi genial, disso podem ter certeza os vinte e três fundadores
originais daquele longínquo janeiro. A história que se seguiu referenda isso.
A fórmula é simples: junte estudantes em férias, idéias
fervilhando na cabeça, uma pequena e provinciana cidade carente de cultura e
diversão, mexa ou mesmo sacuda bem, enfrente a resistência inevitável dos
conservadores e terá uma SEMANA UNIVERSITÁRIA TAMBAUENSE. Ah! , ia me
esquecendo: tente explicar que isso tudo dá certo para seus colegas na volta às
aulas, ou moradores de outras cidades, sem provocar risos desconfiados. É
inacreditável mesmo. Mas sossegue, agora você já tem estas páginas inteirinhas
para ajudá-lo nesta árdua, porém prazerosa tarefa.
Dizia uma canção, nos primeiros anos do CUT: “...não confie
em ninguém com mais de trinta anos...”. Vamos tentar desmistificar isto. Até os
40 anos!
(Artigo escrito por ocasião dos 30 anos da Seunit, em 1993)

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