terça-feira, 19 de março de 2013

Prefácio do Livro dos 30




Delduque Palma Pinto

Um menino disse: “O Clube universitário me pegou de calças curtas...”, e a frase não teve qualquer sentido figurado. 

Efetivamente, quando da sua fundação em janeiro de 1963 , ele não passava realmente de um menino entrando no curso primário, de calças curtas, joelhos quase sempre sujos e arranhados, cabelo cortado no estilo “americano”, pirulito de groselha ou sorvete do Mazzuco à boca e esperando na fila interminável do Trenzinho Coca- Cola da Semana Universitária.

Não lhe passava nada pela cabeça, senão a expectativa de poder olhar a cidade e as pessoas pela orgulhosa ótica do trenzinho. Pelo menos , é desta sensação que sua memória se recorda, daquelas tardes ensolaradas.

Já no trenzinho em movimento, as brincadeiras com os transeuntes, a inocente algazarra originada da sensação de ser notado, a sua buzina  imitando Maria-fumaça  e a vontade de nunca parar este trenzinho, faziam tudo parecer fascinante. E a versão moderna levando romeiros pela cidade. Quem teria tido tal idéia? Ela parecia fabulosa, simples e fantástica. Ela o conquistou realmente. Quem inventou aquilo merecia um prêmio, pensava meio feliz, meio decepcionado com o termino da “viagem”.

Hoje, trinta anos passados, até presidente do clube ele já foi; muitas perguntas tão simples quanto as feitas naquela época continuam lhe povoando a cabeça, sem resposta racional. Sempre lhe pedem para respondê-las, mas é preferível contar histórias a promover complicados debates e simpósios sobre algo tão simples.

(...) Infelizmente, o caráter estudantil e sazonal da Semana sempre imprimiu ao CUT um estilo informal demais às exigências dos historiadores mais rigorosos, já que muitos documentos importantes se perderam na migração da sua sempre transitória sede anual. Apesar disto, muito material é disponível para pesquisa em velhos cartazes, ofícios e documentação burocrática, de posse zelosa do José Eli Costa, nas entrevistas realizadas pelo Paulo Rogério Rocco e nas pesquisas do José Edson Martinelli. Procurou-se, então, inserir, de maneira sintética e abrangente, o material disponível, deixando com isso que ele conte a própria história.

Esperamos oferecer modesta contribuição à compreensão do fenômeno Clube Universitário. “Fenômeno”, porque inédito, pioneiro e resistente a tantos anos, atravessando os turbulentos anos sessenta, aos resistentes anos setenta e até mesmo aos apáticos e conformistas anos oitenta. Pioneirismo e ousadia iniciais, história conturbada com pitadas de estórias criadas, emoções vividas, dificuldades ultrapassadas, experiências não totalmente transmitidas, coesão de opostos, em uma longevidade quase inexplicável, conferem ao CUT este caráter heróico, mítico até, mas sobretudo pitoresco, que se pode notar facilmente na fala dos muitos que atuaram no clube ao longo destes anos.

Aquele menino de calças curtas hoje tem mesmo a sensação de que jamais saiu daquele trenzinho. Viu, como num sonho, tudo passar pelos seus olhos e tudo ainda lhe parece fascinante. O trenzinho teimosamente desafia até mesmo as advertências de Cronos, o implacável deus do redemoinho do Tempo. Seu combustível parece não se esgotar. A explicação disto parece, a esta altura, realmente não ter a mínima importância, esmagada então pelo seu peso de trinta anos. A idéia foi genial, disso podem ter certeza os vinte e três fundadores originais daquele longínquo janeiro. A história que se seguiu referenda isso.

A fórmula é simples: junte estudantes em férias, idéias fervilhando na cabeça, uma pequena e provinciana cidade carente de cultura e diversão, mexa ou mesmo sacuda bem, enfrente a resistência inevitável dos conservadores e terá uma SEMANA UNIVERSITÁRIA TAMBAUENSE. Ah! , ia me esquecendo: tente explicar que isso tudo dá certo para seus colegas na volta às aulas, ou moradores de outras cidades, sem provocar risos desconfiados. É inacreditável mesmo. Mas sossegue, agora você já tem estas páginas inteirinhas para ajudá-lo nesta árdua, porém prazerosa tarefa.

Dizia uma canção, nos primeiros anos do CUT: “...não confie em ninguém com mais de trinta anos...”. Vamos tentar desmistificar isto. Até os 40 anos!


(Artigo escrito por ocasião dos 30 anos da Seunit, em 1993)

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