sexta-feira, 29 de março de 2013

Uma Debutante Famosa

Jornal que teve seus exemplares queimados.

José Eli Costa

Como a boate Bolinha era proibida para menores de 18 anos - e como o proibido sempre aguça a curiosidade - esse grupo de secundaristas citados pelo Edson (post anterior) participava nas decorações, na venda de ingressos para cursos - como o de parapsicologia, ministrado pelos professores Artêmio Longhi e J. B. Rhine, durante a 10° SEUNIT, presidida pelo Castor Sobreira - e teatros.

Com a mudança ocorrida na eleição para a gestão da 13° SEUNIT, um grupo muito jovem, recém-ingressado nas universidades, assumiu a diretoria. A presidência ficou a cargo do então estudante de arquitetura da USP, Fernando José Martinelli. Formou-se um grupo coeso que, pela pouca idade de seus pares, gerou polêmicas entre alguns universitários mais reacionários na época.

Esse grupo jovem passou, então, a organizar as próximas Semanas Universitárias e o sucesso da programação foi tanto que, durante 15° SEUNIT, foram necessárias duas semanas para realizar os eventos agendados.

Durante a 14° e a 15° esteve na presidência Djalma Palma Pinto e Tambaú recebeu, entre outros, Paulo Vanzolini - um dos grandes compositores da MPB, numa noite memorável na SAT. 

Veio também Orlando Villas-Boas, Fernando Morais - lançando um dos maiores sucessos literários na época, “A Ilha”. 

Tambaú recebeu peças teatrais como “Os Saltimbancos” de Chico Buarque de Holanda, “Entre Quatro Paredes”, de J. P. Sartre, “Dois Homens na Mina”, “O Muro de Arrimo” com o famoso Grupo Oficina e “O Globo da Morte” com Cacilda Lanuza.

A Orquestra Sinfônica de Campinas, filmes de grandes diretores nacionais, shows com o grupo Theatron, com o Grupo Chásqui - futuro Raíces de America, completaram  a SEUNIT daquele ano.

Como a preocupação era abranger as sete artes, a direção tomada era sempre buscar os mais modernos e variados espetáculos para a SEUNIT.

Organizou-se também a “Olimpicut”, sob a responsabilidade do Mazinho, José Ruy, Tiquinho, Junior e Celinha Assalim. 

Buscou-se a formação de grupos culturais em nossa cidade e a valorização de gente nossa. Foi encenada a peça “Madalena e a Cruz”, de autoria de Victor Ferreira, o Pica- Pau. “Uma Página da História de nossa Cidade”, teatro onde foram revividos fatos relatados por personagens tambauenses e “Pluft”, com um grupo do Colégio Estadual Padre Donizetti, abrilhantaram a criação local.

Foi nessa época que nasceu o mais famosos bar de Tambaú, embora cíclico, o Bar Catiguria. E também nasceu natimorto o jornal do CUT, o “Panela de Pressão” (foto), que teve seus três mil exemplares queimados.

Uma das mais importantes preocupações desse período foi a criação do GTS - Grupo de Trabalho Secundarista, que surtiu um grande efeito, introduzindo no espírito do CUT vários estudantes secundaristas que viriam, mais tarde, ocupar cargos na direção da entidade. 

quarta-feira, 27 de março de 2013

Um Marco na História do CUT

Edson Fernando Celestino

(Entrevista publicada no Jornal “O Tambaú” no ano de 1988)

Continuando nossa série de entrevistas com pessoas que fizeram a história do CUT, vou entrevistar uma pessoa espetacular, tanto profissionalmente como socialmente: um homem que, ao ser presidente do CUT, deixou na história deste um marco importantíssimo, talvez o único que o CUT, possua. Nosso entrevistado de hoje: Edson Fernando Celestino.

CUT – Edson, quando você começou a participar do CUT e quais suas principais idéias como presidente?

EDSON – Já participava da SEUNIT desde 1967, quando entrei para a Faculdade de Direito. Nessa época eu já ajudava o pessoal, trabalhava um pouco, mas ainda não era o responsável. Em 1975, senti que era a hora de assumir a presidência do CUT. Minha idéia era apagar a imagem que o CUT tinha que ser uma “panelinha”. Eu sonhava em fazer um “panelão”.Com isso na cabeça, fui buscar companheiros e fizemos um jantar de confraternização. 
Estavam comigo na diretoria: José Luiz Bozzi, Marcio Vernaschi, José Luiz Fernandes, Neco e o Paulão de Oliveira. Esse pessoal era desconhecido da classe universitária e isso fazia parte do nosso plano de metas que era fazer o “panelão”.
O funcionamento do plano era assim: cada um estudava numa cidade diferente e tinha que trazer para Tambaú outros estudantes dessas cidades.
Infelizmente nosso “panelão” não obteve o sucesso esperado, os estudantes de fora não apareciam por aqui. Mas mesmo assim, nós fizemos a SEUNIT e com sucesso. Todo mundo trabalhava. E eu penso que é assim, com união, que se consegue alguma coisa.

CUT – Qual o evento realizado por vocês que mais marcou a SEUNIT daquele ano?

EDSON – O que mais marcou dentro daquela SEUNIT foi, com certeza, uma homenagem que fizemos à imigração italiana. Nós trouxemos o vice-cônsul italiano e conseguimos reunir treze imigrantes na ocasião. Destes, só há uma mulher viva até hoje. Fizemos uma grande festa na praça Santo Antonio, bem em frente da matriz e lá colocamos um marco que, além de homenagear todo o povo italiano, ainda deixava para sempre a presença do CUT na cidade. Quem participou desta festa, por certo nunca a esquecerá. Trouxemos também, na época, a peça “O Pequeno Príncipe”  com um grupo de teatro de Cajuru e duas peças de Ribeirão.

CUT – E o Bolinha? Naquela época havia grande preconceito contra a boate?

EDSON – Havia. Naquela época, o Duca, o Djalma, e o Zé Eli e a turma deles já participavam enfeitando o Bolinha e eles faziam decorações ótimas, mas mesmo assim a população via o Bolinha como um lugar onde aconteciam coisas inacreditáveis. Chegamos a fazer uma noite de graça para o pessoal ir à boate.

CUT – Depois que você deixou a presidência, continuou a participar da SEUNIT?

EDSON – Continuei por mais três anos. Depois a coisa começou a partir para outro lado e eu achei melhor tirar o time de campo. Se a SEUNIT for um evento bem organizado, todo mundo ajuda, mas se não houver essa organização, o pessoal vai se afastando. Vai saindo.

CUT – Qual a sua expectativa para o Jubileu de Prata do CUT?

EDSON – Apesar de todas as preocupações e de todo o trabalho, a gente chegar aos 25 anos do CUT já nos traz orgulho de ter participado da diretoria e continuar participando das atividades hoje em dia. Estou muito otimista com os 25 anos, principalmente pelo pessoal que está organizando. Vocês estão bem intencionados e, tenho certeza, terão todo o sucesso esperado.

E, desta forma, terminamos o bate-papo com o Edson. A entrevista foi realizada por mim, pelo Jaime da Silva e pelo João Aguiar, que me acompanharam até a casa do Edson. Numa gelada tarde de domingo, tivemos essa gostosa conversa que serviu ainda mais para aquecer os ânimos para esperar a grande festa do Jubileu de Prata. Agradeço ao Edson pela atenção e pelo marco que ele deixou na história do CUT.
Paulo Rogério

terça-feira, 26 de março de 2013

Os Anos Rebeldes


Maria Isabel Mello Biasoli
José Eli Costa

Nos anos que vieram depois do José Ristum, o panorama brasileiro passava por mudanças drásticas na área política e social. 

Inicia-se os chamados “Anos Rebeldes”, os anos da ditadura militar, que iriam marcar as décadas vindouras. Explode a repressão aos movimentos estudantis, principalmente à UNE e Centros Cívicos.

Devido justamente a essas mudanças, emergem nomes no cenário cultural brasileiro, como Geraldo Vandré, Oduvaldo Vianna Filho – O Vianinha -, os Centros Populares de Cultura - CPC, a prisão e o espancamento de artistas da peça “Roda Viva”. E como dizia Caetano Veloso: “Viva Cacilda Becker!”

Na música, a Bossa Nova com João Gilberto muda o panorama musical brasileiro. Elis Regina e os famosos festivais da Record. Surgem Gil, Caetano, Os Mutantes, Chico Buarque, Rui Guerra, entre outros. 

Esse movimento generalizado iria repercutir na SEUNIT, principalmente na sua programação cultural, com apresentações de artistas de TV paulista, como Paulo Molin, crooner da Boate Luna.

Por aqui, também, artistas e pessoas envolvidas direta ou indiretamente com o CUT, realizavam a programação da SEUNIT, com sede fixa na sociedade Amigos de Tambaú - a SAT. Os programas eram realizados pelos senhores Jacintho da Fonseca Pinto, Antonio Ristum Salum e Dirceu Cerquetani, os apresentadores oficiais dos eventos. 

Cantores como o Preteco e Modesto saíam às ruas com serestas, rodas de samba. Programas famosos na época eram recriados na SAT.
À noite, a festa continuava. A boate “Bolinha” era a grande atração, sempre mantendo a tradição de som ao vivo e da decoração. 

Como a SEUNIT tornou-se tradicional não só em Tambaú, mas também em toda a região, tradicional ficou o “Super Som RR” de São José do Rio Pardo, chefiado por Flávio Consolo, que tocou nas Semanas Universitárias por vários anos. Como não se lembrar da Selminha e da Jussara cantando “Sabor a Mi”, “Just a Dreams a Go”? Corações se derretiam, namoros começavam e terminavam ao som do “Super Som RR”.

Para encerrar a SEUNIT com chave de ouro, havia o Baile de Coroação da Rainha dos Universitários. Para rainha, era escolhida a menina que durante toda a Semana encarnava o espírito dos universitários. 

A primeira rainha foi a Iolanda Nicolella, seguida de outras mulheres como: Fernanda Maria P. Carrara, Maria Francisca P. Pinto, Lélia Maria Gatto Ferrari, Deise Bassanezzi, Eliana Martinelli, Eliana Giorgetto, Ângela Maria Biasoli, Casta Maria S. Sordi, Márcia Nicolella, Mônica Uliana, Lenise Gatto Rizzatti, Cristina Ricciardi, Mariângela Favaretto, Roseane Araújo, Maria Isabel Mello Biasoli, Ângela Segatto Rizzatti e Meli Pinto Damo.

Plagiando a música “Assim se Passaram Dez Anos...”, vamos encontrar a XII SEUNIT com a proposta de apagar a ideia que se formou de que o CUT era uma grande panela. 

domingo, 24 de março de 2013

E tudo começou assim.

Uma das famosas decorações do "Bolinha", na SAT. 

(Entrevista publicada no Jornal “O Tambaú” no ano de 1988)

Paulo Rogério B. Rocco

Este nosso bate-papo aconteceu no sábado, dia 9 de abril e, através de algumas perguntas, o nosso amigo José Ristum contou tudo. Você vai saber agora como nasceu o CUT - Clube Universitário Tambauense - e para que ele foi criado.

PR - José Ristum, como nasceu a idéia de formação de um clube universitário em Tambaú, que não possuía e não possui uma universidade?

JR – O CUT não tem nada a ver com universidades. O que aconteceu foi que os universitários que estudavam fora e que não eram muitos pois eram poucas as faculdades ao alcance, chegavam em Tambaú nas férias de julho e reuniam-se na SAT. Não havia muitas opções de lazer. E foi numa dessas conversas, na SAT, que surgiu a ideia de se promover alguma coisa no mês de julho. Da conversa para a criação do CUT, o passo foi curto. Eu e meus amigos fomos falar com o presidente da SAT, que na época era o Dr. Lara e pedimos autorização para promover na SAT as experiências que tínhamos na faculdade. A ideia sempre foi essa, trazer para Tambaú, palestras, teatros, conferências, jogos e tudo mais que as faculdades tinham.

Umas das finalidades do CUT também era a de informar os estudantes de Tambaú sobre as faculdades. O que eram os cursos, onde havia faculdades de determinadas áreas. Nossa missão era entrosar os estudantes de 2° grau com os universitários.

Para chamar os estudantes a participarem da SEUNIT, usávamos algumas estratégias que acabaram por virar tradições. Criamos o concurso da Rainha dos Universitários e essa rainha não poderia ser universitária. A menina escolhida sempre “arrastava” muitos colegas de escola para nossos eventos.

O próprio “Bolinha” era uma maneira de chamar os jovens. O povo precisa de pão e o nosso circo era o “Bolinha”.

A ideia teve tanta repercussão, que os estudantes daqui não viam a hora de entrar numa faculdade para poder participar da diretoria do CUT.

PR – Como a cidade reagiu à sua primeira SEUNIT?

JR – No início, houve muita crítica ao “Bolinha”. A população associava o nome da boate à droga que era muito consumida na época. 

Na verdade, o nome da boate nada tem a ver com a droga. Aconteceu que na primeira noite que funcionou o “Bolinha”, nós usávamos como decoração várias bolas coloridas e um cara da nossa turma chegou na SAT, observou a decoração e disse: “Puxa! Isto aqui ta parecendo o Clube do Bolinha”. Daí surgiu o nome da nossa polêmica boate. Parte da polêmica era por causa do ambiente parcialmente escuro que, para os olhos da população de Tambaú, era uma coisa de outro mundo. Ela associava a falta de luz à frequência de pessoas de má reputação. Para explicar melhor, a iluminação do “Bolinha” era igual à iluminação dos atuais bailes na SAT. Todas as críticas da primeira Semana caíram sobre o “Bolinha”.

PR – Daria para o senhor fazer um resumo dos sete anos como presidente do CUT?

JR – Os seis próximos anos foram praticamente no mesmo estilo que o primeiro. Apenas havia mudanças na decoração da boate. Eu me lembro do ano da conquista da Lua, que eu trouxe um amigo de São Paulo para que fizesse a decoração do “Bolinha” com esse tema. Foi um sucesso. O “Bolinha” fechava às 2 horas, mas o pessoal se reunia e ficava ouvindo alguém tocar violão e cantando até as 5 da manhã. A época era da Bossa Nova, com a Elis, Jair Rodrigues, músicas revolucionárias como a de Vandré, a jovem-guarda de Roberto Carlos, entre outros.

PR – Qual a sua opinião sobre o velho tema da sede própria para o CUT?

Jr – Todo mundo sabe que é da máxima importância um local para guardarmos as coisas do CUT. Seria preciso conseguirmos nem que fosse um quartinho 3x2 para guardar os documentos e objetos do Clube. O problema da sede persegue o CUT desde o início, mas o mais importante é não parar a luta.

PR – Quais as suas expectativas para a SEUNIT deste ano que comemora seu Jubileu de Prata?

JR – Eu falo em nome de todos os universitários que formaram o Clube e todos os outros que se seguiram depois. Eu acho que nós gostaríamos imensamente, ou melhor, tenho certeza que gostaríamos que houvesse uma confraternização com a primeira turma do CUT e todas as outras que vieram depois. Todos gostaríamos de ser lembrados neste Jubileu de Prata. É minha maior expectativa reunir as diretorias e conversarmos sobre os vinte e cinco anos deste importante Clube.

PR – Que palavras o senhor diria a nós, do CUT, que estamos trabalhando para não deixar morrer a sua ideia de vinte e cinco anos atrás?

JR – Por vocês estarem no caminho certo, na condução do CUT, a única palavra de incentivo que posso dizer é: acreditem em vocês, pois vocês são capazes de atingir todos os objetivos propostos. Vocês vão vencer. Eu acreditei em mim e em meus amigos. Tinha certeza de que ia vencer e venci.

sexta-feira, 22 de março de 2013

O Início


José Eli Costa


O exercício de tentar voltar às suas mais remotas origens sempre perseguiu o ser humano. Nos filmes de ficção como “2001- Uma Odisseia no espaço”, até nos mais modernos do gênero, inspirados por este sensacional pioneiro, pode-se perceber esta busca do primeiro momento, da origem do fato gerador ou revolucionário.

O homem às vezes, tem a intuição que, se regredir à origem, pode talvez, mudar o futuro ao sabor de uma experiência já adquirida. E reformular a trajetória já percorrida. As teorias relativistas de Einstein provocam tais sensações de liberdade na imaginação humana.

Pois é, em plena comemoração do trigésimo aniversário, por que voltar às origens? Responde-se com o óbvio; a curiosidade humana é incontrolável e o que fazer do futuro depende de como se interpreta a história. Esta última, encarada como um conjunto de fatos inter-relacionados e costurados pelo fio comum do modo de produção social adotado no referido período. A história, assim encarada, passa a ter a sua letra inicial escrita em maiúscula e passa a ser, então, História.

O Clube Universitário tem muitas histórias, mas também tem História. Afinal, são pelo menos cinco fases distintas pelas quais já passaram incontáveis estudantes universitários tambauenses.

Talvez o fato do Clube Universitário Tambauense completar trinta anos, justifique a necessidade de rever seus ideais, propósitos e realizações. Sem duvida, aos seus primeiros idealizadores e também todos os que, de uma maneira ou de outra, já passaram por ele, não imaginariam que este Clube fosse além de seus possíveis limites, tanto nas realizações, quanto cronologicamente. Para tanto, basta olhar para o que o CUT representa hoje, para avaliar as dificuldades ideológicas e materiais de sua implantação.

A ideia de se formar um Clube Universitário surgiu das aspirações de um grupo de universitários tambauenses em meados de 1963. Poderíamos chamá-lo de “Clube dos 23”, pois era esse o número de envolvidos neste genial empreendimento, que viria cortar a vantajosa estagnação que vivia Tambaú na década de 60.

Lembrar nomes como Francisco José Gatto, Balduíno Kalil Dib, Antonio Ristum Salum, Nephele Ristum Salum, Janete Ristum Salum, Delal Ristum Salum, Célia Bacci, Ricardo Aparício Bacci, José Eli Martinelli de Lima, Leni Maria Martinelli de Lima, Antonio Márcio Prado Venturine, Shirley Aparecida Lepri, Ligia Gândara Esteves, Cecília Sobreira, Eronir Georgetti, Sérgio Prado de Mello, Glória Biasoli Alves e José Ristum, entre outros, é recordar a História.

Entretanto, em particular, um universitário teve grande parte dos méritos da formação e consolidação do CUT, o então estudante de engenharia, José Ristum. Seus nome deve ser destacado principalmente pela liderança e vontade de ver consolidada sua ideia  Basta dizer que ele foi, durante os primeiros sete anos, o responsável pela organização da SEUNIT, a Semana Universitária Tambauense, numa fase muito difícil devido à natural aversão às novas idéias.

(Artigo publicado em 1993).

terça-feira, 19 de março de 2013

Prefácio do Livro dos 30




Delduque Palma Pinto

Um menino disse: “O Clube universitário me pegou de calças curtas...”, e a frase não teve qualquer sentido figurado. 

Efetivamente, quando da sua fundação em janeiro de 1963 , ele não passava realmente de um menino entrando no curso primário, de calças curtas, joelhos quase sempre sujos e arranhados, cabelo cortado no estilo “americano”, pirulito de groselha ou sorvete do Mazzuco à boca e esperando na fila interminável do Trenzinho Coca- Cola da Semana Universitária.

Não lhe passava nada pela cabeça, senão a expectativa de poder olhar a cidade e as pessoas pela orgulhosa ótica do trenzinho. Pelo menos , é desta sensação que sua memória se recorda, daquelas tardes ensolaradas.

Já no trenzinho em movimento, as brincadeiras com os transeuntes, a inocente algazarra originada da sensação de ser notado, a sua buzina  imitando Maria-fumaça  e a vontade de nunca parar este trenzinho, faziam tudo parecer fascinante. E a versão moderna levando romeiros pela cidade. Quem teria tido tal idéia? Ela parecia fabulosa, simples e fantástica. Ela o conquistou realmente. Quem inventou aquilo merecia um prêmio, pensava meio feliz, meio decepcionado com o termino da “viagem”.

Hoje, trinta anos passados, até presidente do clube ele já foi; muitas perguntas tão simples quanto as feitas naquela época continuam lhe povoando a cabeça, sem resposta racional. Sempre lhe pedem para respondê-las, mas é preferível contar histórias a promover complicados debates e simpósios sobre algo tão simples.

(...) Infelizmente, o caráter estudantil e sazonal da Semana sempre imprimiu ao CUT um estilo informal demais às exigências dos historiadores mais rigorosos, já que muitos documentos importantes se perderam na migração da sua sempre transitória sede anual. Apesar disto, muito material é disponível para pesquisa em velhos cartazes, ofícios e documentação burocrática, de posse zelosa do José Eli Costa, nas entrevistas realizadas pelo Paulo Rogério Rocco e nas pesquisas do José Edson Martinelli. Procurou-se, então, inserir, de maneira sintética e abrangente, o material disponível, deixando com isso que ele conte a própria história.

Esperamos oferecer modesta contribuição à compreensão do fenômeno Clube Universitário. “Fenômeno”, porque inédito, pioneiro e resistente a tantos anos, atravessando os turbulentos anos sessenta, aos resistentes anos setenta e até mesmo aos apáticos e conformistas anos oitenta. Pioneirismo e ousadia iniciais, história conturbada com pitadas de estórias criadas, emoções vividas, dificuldades ultrapassadas, experiências não totalmente transmitidas, coesão de opostos, em uma longevidade quase inexplicável, conferem ao CUT este caráter heróico, mítico até, mas sobretudo pitoresco, que se pode notar facilmente na fala dos muitos que atuaram no clube ao longo destes anos.

Aquele menino de calças curtas hoje tem mesmo a sensação de que jamais saiu daquele trenzinho. Viu, como num sonho, tudo passar pelos seus olhos e tudo ainda lhe parece fascinante. O trenzinho teimosamente desafia até mesmo as advertências de Cronos, o implacável deus do redemoinho do Tempo. Seu combustível parece não se esgotar. A explicação disto parece, a esta altura, realmente não ter a mínima importância, esmagada então pelo seu peso de trinta anos. A idéia foi genial, disso podem ter certeza os vinte e três fundadores originais daquele longínquo janeiro. A história que se seguiu referenda isso.

A fórmula é simples: junte estudantes em férias, idéias fervilhando na cabeça, uma pequena e provinciana cidade carente de cultura e diversão, mexa ou mesmo sacuda bem, enfrente a resistência inevitável dos conservadores e terá uma SEMANA UNIVERSITÁRIA TAMBAUENSE. Ah! , ia me esquecendo: tente explicar que isso tudo dá certo para seus colegas na volta às aulas, ou moradores de outras cidades, sem provocar risos desconfiados. É inacreditável mesmo. Mas sossegue, agora você já tem estas páginas inteirinhas para ajudá-lo nesta árdua, porém prazerosa tarefa.

Dizia uma canção, nos primeiros anos do CUT: “...não confie em ninguém com mais de trinta anos...”. Vamos tentar desmistificar isto. Até os 40 anos!


(Artigo escrito por ocasião dos 30 anos da Seunit, em 1993)

segunda-feira, 18 de março de 2013

Cinquenta


1962 e 1963 foram anos incríveis para a música, o cinema, a arte em geral. O mundo mudou a partir daí. 

Mudamos juntos. Quem já estava por aqui, quem nasceu alguns anos depois e, quase parafraseando Brecht, até os que vierem depois de nós.

Em meio a este turbilhão cultural surgiram umas bandas na Inglaterra que mexeram um pouquinho com nossa vida: uns tais de Rolling Stones e uns garotos de terninho, comportadinhos, que se auto intitularam The Beatles.

No cinema, um agente secreto à serviço de Sua Majestade, perpetuou um gênero, com uma boa dose de Martini - mexido, não batido, mulheres deslumbrantes, ação do início ao fim e verossimilhança deixada de lado, em favor da magia do cinema.

Cinquenta é um número cabalístico para os amantes da Cultura em geral. E também para nós, da pequena e brava Tambaú que quase sempre, com honrosas exceções, foi culturalmente castigada por desmandos, perseguições e policiamento politicamente hipócrita por parte de autoridades historicamente despreparadas, no decorrer da história.  

O CUT - Clube Universitário Tambauense já surgira em 1962, mesmo ano do primeiro single dos Beatles “Love Me Do” e do primeiro filme de Bond, “O Satânico Dr. No”, bem como da formação dos Stones.

Mas foi há exatos cinquenta anos que a banda de Liverpool lançou “Please, Please Me”, o primeiro disco; que Charlie Watts assumiu definitivamente a bateria dos Stones e que “Moscou contra 007” consolidou a imagem do agente secreto nos cinemas.

Neste turbilhão, um grupo de jovens deu a cara à tapa para fazer a diferença. Um ano depois a outra face seria oferecida – até a contragosto – em forma de um golpe militar no país.

Mas a Senhora dos Nossos Sonhos – nossa Seunit – sobreviveu aos 23 filmes do maior agente secreto do cinema, à mais de 30 discos de estúdio (e outro número igual de discos ao vivo) dos Rolling Stones, à toda discografia dos Fab Four, à morte de dois deles, à 10 prefeitos e à sede que nunca teve.

A Semana Universitária Tambauense é o melhor espelho da juventude da cidade desde sua criação, para o bem e para o mal. Reflete exatamente o pensamento, a atitude (ou a falta dela), a cultura, a política, o gosto musical e, sobretudo, o comportamento dos nossos jovens.

E nunca um dos hinos da Seunit coube tanto nesses cinquenta anos: “Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais.” O que, na atual circunstância, é um grande alento e esperança.

O novo visual deste blog, que vai reproduzir neste ano entrevistas e artigos históricos da Seunit, homenageia todos que colocaram e colocam, na parede da memória, os quadros que compõem o riquíssimo mosaico de lembranças chamado “Semana Universitária Tambauense”.

Saudações Universitárias.

Paulo Rogério B. Rocco

SEUNIT retorna com apoio da Prefeitura Municipal e organizada por ex-universitários

A SEUNIT – Semana Universitária Tambauense volta a ser realizada neste ano. A organização é de um grupo de ex-universitários e conta com o a...