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| Cine Rio Branco sendo demolido. |
José Edson Carvalho Martinelli
Sob a presidência de Geraldo Medeiros de Brandão Filho,
começa a primeira SEUNIT da década de 80: a 17°.
Uma presença de grande destaque foi a do artista plástico
Edson, da cidade de Jundiaí, que realizou várias oficinas de escultura em
argila, entalhe em madeira, argila com revestimento em durepox, etc.
Outro inesquecível evento foi a apresentação da peça “O
Pagador de Promessas”, protagonizada por João Batista Rossi Prado e por
Mariângela Favaretto, sob direção da Rosangela Amélia Cunha. A peça causou
grande sensação pois tratava a intolerância da igreja católica frente a outras
religiões de caráter sinclético religioso. É bom lembrar que a adaptação desta
peça para o cinema, foi o único filme nacional a ganhar a Palma de Ouro no
Festival de Cannes, na França.
Seguiu-se naquela SEUNIT, o tradicional Bolinha, uma roda de
viola na sede do Esporte Clube Operário e o Baile de Encerramento com o
conjunto Sombalanço.
Em 1981, o CUT assumiu uma proposta de realizar um trabalho
conjunto com aqueles universitários que viajavam todos os dias para as
faculdades próximas e moravam em Tambaú e realizar eventos o ano todo. As
discussões se arrastaram, inclusive o Estatuto do Clube passou pela sua
primeira reformulação.
A chapa deste ano, presidida por Carlos Teani Freitas,
ressaltou os talentos locais. Um fato marcante foi a realização de entrevistas
gravadas na Rádio Tambaú com ex-presidentes da SEUNIT.
Neste ano, o Cine Rio Branco já fechara suas cortinas. Os
estudantes alugaram um barracão na Rua Balduíno Biasoli e improvisaram um
cineclube. Foram projetados filmes em 16 mm, num projetor cedido pela paróquia
local.
Outro destaque foi a realização de atividades com crianças, feitas
pelo grupo Mamungo Mamulengo, do qual participava a universitária Neusinha
Vidolim.
No bar Catiguria apresentaram-se músicos irreverentes como
Cachoeira e Cometa, da cidade de São Paulo. Lembro que, no meio da apresentação o Cometa pulou o muro do Casarão – na intenção de voar - e caiu sobre uma velha de guarda-chuva.
Seguiram-se apresentações do Grupo Chásqui e de tambauenses
como Pica-Pau e Modestinho e seu Conjunto.
Em 1982, a diretoria do CUT apontou que a SEUNIT vinha
perdendo seu público e popularidade. Tião Medonho me disse que a primeira
providência para reverter a situação foi transferir o Catiguria e o Bolinha
para o Cine Rio Branco. Sebastião Biasoli Alves, o Tião Medonho, foi o
presidente deste ano.
A programação começou com um evento que viria a se tornar
tradição nas próximas Semanas Universitárias: a Caça ao Tesouro. Outro
divertido evento foi o 1° Torneio de Pipas, que coloriu a Praça Santo Antonio.
Seguiu-se uma corrida “tartaruga” de motos - ganhava quem conseguia chegar por último, uma gincana para casais e muita atividade esportiva.
Nessa SEUNIT estreou o Grupo TAT - Teatro Amador Tambauense -
com a peça “Judas em Sábado de Aleluia”, de Martins Pena, sob direção de Sandra
Bretas, cenografia de Paulo Barbin e Pedrinho Assalim, figurinos de Lana.
A
peça “Comendo Ilusões”, escrita e dirigida por tambauenses, misturava realidade
e ficção e mostrava o cotidiano de trabalhadores de indústrias cerâmicas em
Tambaú e as contradições nessa área.
Em 1983, o CUT tomou outros rumos. Ao contrário da
costumeira divisão hierárquica da diretoria, com os cargos definidos, optou-se
por uma divisão de trabalhos dentro de uma comissão, com o objetivo de
descentralizar o poder. Assim, tínhamos uma comissão cultural, uma esportiva,
uma de propaganda. Um dos aspectos deste ano era tirar o caráter personalista
do presidente pois, como se pensava, a realização de uma SEUNIT envolvia muita
gente. Muitos trabalhavam e, às vezes, seus nomes nem constavam na chapa.
Durante janeiro deste ano, foi montado um bar no prédio do
Cine Rio Branco. Tudo caminhava para uma ótima SEUNIT. Era uma época em que os
gostos e estilos musicais eram outros. Cantava-se muito Milton Nascimento, Beto
Guedes, Caetano, Chico Buarque, Gilberto Gil e musica latino-americana. Éramos
um pessoal que saiu de casa muito cedo, bebia em demasia para a idade que
tínhamos. A boemia se encontrava no polêmico Bar Stones e se falava em
concepção de vida, em política, estilos musicais, com violão e a poesia sempre
sentados à mesa.
Somente o preconceito ficava do lado de fora, quando não a
policia vinha fechar o bar. Foi ali que muitos acordaram para o mundo. Foi ali
que muitos aprenderam a gostar da vida e a sofrer por ela quando a Jiló pegava
seu violão e tirava da bagagem uma Ângela Rô Rô, um Geraldo Vandré ou um
Vinicius de Moraes. Amava-se bastante. E se queria uma sociedade diferente. Foi
uma geração que nasceu em 63 e 64 e viveu intensamente uma juventude no começo
dos anos 80. Uma geração que não permitia a “morte ao pensamento”.
A precoce despedida da Jiló causou uma sensação de que era ela que
aglutinava a gente, que a energia que ela passava, vitalizava, instigava, nos
unia por uma força inconsciente. Depois, ficou uma lacuna, muitos órfãos e uma
saudade sem fim. E as pessoas começaram a se dispersar.
Foi sobre esse estigma que se realizou a 20° SEUNIT, marcada
por vários aspectos. A contestação pairava sobre as estruturas sociais e sobre
o próprio CUT. Radicalizaram-se posições. Existiu um ideal anarquista.
Portanto, tudo que era existente era alvo de tiros, nem sempre certeiros.
Foi nessa Semana que se realizou o 1° Festival de MPB de
Tambaú, no Cine Rio Branco. Promovido pela Rádio Tambaú, com a colaboração da
Prefeitura e Comissão Municipal de Cultura, o Festival marcou o ano. Houve uma
grande adesão de músicos de muitas cidades. Vaiou-se e aplaudiu-se. Criou-se
torcidas. Depois das apresentações, os músicos se encontravam no Catiguria, que
funcionou na casa ao lado do Posto 47 e a música ia até altas horas.
Foi nesse ano que o Grupo TAT encenou “Comendo Ilusões”, já
citada.
A 21° SEUNIT começou conturbada. No ano anterior, não se
apresentou nenhuma chapa para assumir a diretoria do CUT. Em 1984, dois meses
antes para a Semana Universitária, um grupo de não-universitários e
ex-universitários assumiu a SEUNIT.
Este ano o CUT foi presidido pela primeira presidenta de sua
história, a Rosana Bretas, escolhida em uma reunião de caráter urgente, quando
o Catiguria já estava em funcionamento no Casarão da Esquina.
Um dos objetivos daquele ano era a construção da bendita –
ou maldita – sede.
Quanto às promoções culturais, os espetáculos foram
apresentados na rua, pois achava-se que na SAT o povo ficava intimidado de
comparecer a um teatro ou outro evento.
Um dos pontos altos, entretanto, foi reservado para a SAT:
uma exposição de arte que expôs, entre outros, trabalhos de Bel Biasoli, do
Julio Giorgetti, do Evaristo de Oliveira, do Paulino Barbin e do Pedrinho
Assalim.
Neste ano não aconteceu o Bolinha e a boate foi substituída
por musica ao vivo no Catiguria. Na primeira noite aconteceu o lançamento
do livro “No Meio Desta Vida”, de Neide
Arruda. Havia um trecho no livro que dizia: “Cada conto, ao desenvolver-se é
como um grito a sacudir a inércia dos acomodados com a situação social
existente. Quando a sensibilidade feminina se expande e invariavelmente é
esmagada por um mundo dominado por valores masculinos...” As entre-aspas talvez captem um pouco do sentimento de uma
moçada que não deixou a SEUNIT se acabar.
Nesta Semana destaca-se ainda a exibição de filmes
nacionais como “O homem que Virou Suco”, de João Batista de Andrade e de um
jornal que publicava as melhores frases escritas no espaço livre do Catiguria.
Foi daí que surgiu a propaganda-lamento: “Uma cidade sem cinema é como um
quarto sem janela”.
A 22° SEUNIT apresentou um evento já no ano anterior à sua
realização, em agosto de 1985. Foi realizado um museu histórico com vários
objetos cedidos para o evento.
Na Semana propriamente dita, aconteceram teatro de rua,
exposições de arte e som ao vivo no Catiguria.
Na SAT aconteceu a volta de “Pluft, o Fantasminha” e “Viva a
República!” que marcaram a estréia do Grupo Curtura de Teatro dentro da SEUNIT.
O Grupo Estréia de Ribeirão Preto trouxe a peça “Lisístrata”. Os tambauenses
Ercy Ayala e Lannoy Dorin proferiram palestras na SAT.
Na 23° SEUNIT, em 1986, a diretoria criou o movimento “Pró-
Centro Cultural”. Respaldados por um projeto de monografia em arquitetura, de
autoria de Fernando Martinelli, o Canudo, cujo conteúdo básico consistia em
realizar uma reforma no Cine Rio Branco, transformando-o em Centro Cultural, a
diretoria colocou mãos à obra.
O Grupo, formado por mim, pela Sara, pelo
Paulinho Barbin, pela Monica, a Regininha, Silvaninha e o Jeffinho, engajou-se
na proposta para levar adiante as negociações. Chegamos a fazer uma reunião
dentro do próprio cinema, que já estava em péssimas condições. Todos saíram
satisfeitos dessa reunião e promessas foram feitas por parte de autoridades
políticas.
Quando a SEUNIT terminou e os universitários voltaram para
suas cidades, o quadro mudou. Em vez de se realizar o projeto, que uma vez
pronto iria reverter até uma verba para a Santa Casa local – proprietária do
prédio do cinema, tudo foi por água abaixo. O prédio foi vendido e, após um
mês, demolido. Muitos se sentiram traídos e outros saíram com os bolsos cheios.
Não vale a pena dar nomes aos bois. O que vale é todo o esforço empreendido que
sinalizou para a construção do Centro Cultural. Diga-se de passagem, sempre mal
administrado.
Portanto, o que mais marcou a 23° SEUNIT foi a última
tentativa do CUT de ter um espaço físico. Fora isso, acrescenta-se a peça
“Pau-Brasil na Cabeça Deles” com a Companhia “Agnosart”, de Ribeirão Preto. A
temática girava em torno de insensatez humana em tratar a cultura como algo
secundário ou supérfluo. Era baseada em fragmentos do dramaturgo alemão Bertold
Brecht, do qual o absurdo cotidiano e a visão crítica da sociedade sempre foram
temas favoritos.
Também o Grupo Curtura esteve presente com a peça "A Operação
Centenário", que se referia
ironicamente aos 100 anos da fundação de Tambaú, criada e dirigida pelo Paulo
Rogério B. Rocco.
No mais, aconteceu um encontro de corais e a presença de
Fernando Morais, lançando seu Best-seller “Olga”. Finalizando, foi uma época
onde os ideais não foram derrotados. Na música, ouvíamos Legião, e os versos
cortantes de Renato Russo, disparando em todas as direções opressoras:
“Depois de vinte anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser?
Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então, vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis”.
(Artigo publicado em 1993, por ocasião da 30ª Seunit)
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