quarta-feira, 3 de abril de 2013

O Arquivo Vivo


Rainha do CUT participa de Desfile em 1975.
(Entrevista publicada no Jornal “O Tambaú” no ano de 1988)

Nosso entrevistado de hoje: José Eli Costa.

CUTJosé Eli, você é considerado um arquivo-vivo da SEUNIT, por ter informações e conhecimentos sobre várias Semanas Universitárias. Na verdade, de quantas você participou? Faça um resumo desses anos.

JENa época em que éramos secundaristas, não podíamos participar do Bolinha, somente nas atividades culturais. Isso despertava em nossa turma um desejo enorme de sermos universitários e poder participar ativamente da SEUNIT. Na Semana em que o Castor Sobreira foi presidente, nós começamos a ajudar o pessoal do CUT, vendendo ingressos, ajudando na decoração e em outras coisas. Hoje em dia não há esse desejo de fazer parte do CUT, de participar ativamente da vida universitária. Como também não há interesse de nenhuma facção política de ajudar a manter vivo esse Clube Universitário.

No ano em que o Geraldo Alves Filho foi o presidente, começamos a participar mais diretamente. Decoramos o Bolinha com aranhas e teias espalhadas pelo telhado e pelas paredes. Isso teve um visual fantástico. Depois veio o Edson Celestino e foi aí que os secundaristas começaram a ter acesso mais ativo na SEUNIT. 

Com o Fernando Martinelli pegamos a diretoria do CUT. Aconteceu numa época em que uma pessoa disse que o CUT iria passar para as mãos de “moleques” e nós pegamos a direção justamente para mostrar que os “moleques” eram capazes de organizar uma SEUNIT. Muitos de nós já estavam fazendo faculdade em São Paulo. E à partir daí começa - vamos dizer assim - uma nova ideologia dentro do CUT.

Depois veio a 15° SEUNIT, presidida pelo Djalma e com ele a diretoria e o grupo se efetivaram. O grupo sentava, discutia e dividia trabalho. Foi realizado um organograma com a distribuição das tarefas. Assim, se uma parte da SEUNIT não ia bem, havia alguém que era responsável pela falha.

Nós já nos preocupávamos em seguir uma linha que fugia do “elitismo” e que procurava objetivar uma atuação mais próxima da realidade. Era a época  da repressão e nesse contexto, concluímos que, há 17 anos, com todas as dificuldades, o CUT existia e tínhamos que lutar por ele. 

A principio, o CUT colocou-se como uma opção de vanguarda. No decorrer de sua história, entretanto, o CUT voltou-se para si, abstendo-se de provocar debates, de assumir posturas políticas.  Nós recebemos o CUT com essa visão. A SEUNIT tinha que ser uma festa. Procuramos não fugir da tradição mas, em meio a isso, procuramos também ampliar as visões do CUT como entidade. Procuramos deixar de lado aquele ar de superioridade classe média que tanto caracterizava o universitário brasileiro.

CUTQuais as maiores dificuldades enfrentadas pela sua turma?

JE – A tradicional falta de espaço, falta de verba, falta de sede, falta de compreensão de órgãos competentes e não-criação de um vinculo do CUT com a comunidade. O CUT é a primeira semente do gênero lançada no país e depois copiada em várias cidades. Acho que isso sempre é um ânimo para superar as dificuldades.

CUT Quais as contribuições da Secretaria Municipal da Cultura para as Semanas Universitárias recentes, já que você é o secretário?

JE Face ao pouco tempo de existência desta Secretaria e de todos os problemas relacionados com a cultura num país sem memória, a atuação desta Secretaria vem sendo feita naquilo que lhe é possível, ou seja, ajudado com transporte de teatros, cartazes, alimentação para convidados, etc. A parte do orçamento realizada mediante os anos anteriores sempre aumenta, mas a inflação é sempre maior, deixando a verba deficitária.

CUT – Há uma brincadeira que diz que você é o "vovô" da Semana Universitária. Na sua opinião, quem seria o verdadeiro “vovô” da SEUNIT?

JECom uma visão emocional e devido à sua participação em várias Semanas Universitárias, como apresentador, colaborador e sócio honorário do CUT, o Sr. Jacintho da Fonseca Pinto seria, não o vovô, mas a pessoa a quem o CUT teria como seu membro mais antigo. Um homem que continuará jovem para sempre.

CUT – Quais as funções que você ocupou durante as Semanas que você participou?

JEDentro das diretorias, sempre fui secretário. E, desde que saí, até hoje, participo como um universitário que sempre teve uma visão crítica na atuação dos trabalhos posteriores, sempre preocupado com as novas diretrizes do CUT.

CUT -  Qual o evento - ou os eventos - que mais marcou durante as Semanas Universitárias que você esteve na diretoria?

JE – Fora os eventos culturais, o que mais marcou foi uma reunião que, acredito, tenha sido a mais longa do CUT. Ela foi realizada no Casarão e o que marcou foi a reação causada pela postura do nosso trabalho quando lançamos o jornal “Panela de Pressão”, órgão de informação e debate do CUT - em 1979 , n° 1 e que ficou no 1° devido e determinados elementos defensores na época, de uma CUT apolítico e desvinculado de movimentos estudantis e que se sentiam incomodados com nossa ideologia de trabalho. O natimorto “Panela de Pressão” foi queimado pela “Santa Inquisição”. Trazendo de volta esse lamentável episodio do passado, gostaria, gostaria de citar um poema que estava escrito na primeira página do nosso jornal:

“CUT – Porque tudo que está aí precisa ser dito.
É preciso conhecer as consequências. Calar é uma posição
de espera. Espera que nunca finda, que não se modifica.
E para transformar é preciso saber. Está lançado o desafio.
Tambaú não é um pedaço sem importância na grande questão.
Existe a panela.

Discutir- dissecar- desvendar- unir- atuar.
Existe a pressão.”

(Entrevista realizada por Paulo Rogério B. Rocco)

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