sexta-feira, 12 de abril de 2013

Entre Acordes e Histórias

Charge do Duca feita por João Prado.

(Entrevista publicada no Jornal “O Tambaú” no ano de 1988)

O nosso entrevistado de hoje é uma pessoa que eu admiro muito, tanto por suas idéias como por seu trabalho dentro de tantas Semanas Universitárias. Ele queria gravar a entrevista sentado na calçada, mas como meu gravador estava sem pilhas, tivemos que ir pra minha casa.

O Zé Eli estava conosco e enquanto eu preparava o gravador, o nosso entrevistado pegou meu violão e começou a soltar algumas notas pelo ar. Em poucos segundos, estava tocando e cantando “Yesterday”.

Foi nesse clima descontraído que ele nos contou como foi sua época no Clube Universitário. Uma época de sua vida que nunca irá sumir das suas lembranças.

Nosso convidado de hoje: Delduque Palma Pinto, o Duca.

CUT – Duca, eu gostaria que você fizesse um resumo de sua época como integrante do CUT e responsável por tantas Semanas Universitárias.

DUCA – A gente participou e eu digo “a gente” por que éramos basicamente uma equipe que começou junta e foi junta até o final. Depois, eu acredito que não se viu mais essa união, a não ser nas primeiras Semanas. Por exemplo: o Zé Ristum ficou sete anos na presidência, talvez pela novidade e empolgação que havia nas primeiras diretorias com o grupo que começou e continua junto pelo pioneirismo. Depois, a coisa foi perdendo o pique por vários motivos. Não só o desanimo contribuía pra isso, mas também motivos políticos. A SEUNIT passou por um período em que não existia muita programação cultural. Ela se resumia no Bolinha. A gente tinha uma necessidade que é típica de nossa geração: achar falta de algo cultural pra Tambaú. O sentido da SEUNIT, ao nosso ver, era esse, apesar de gostarmos demais da programação artística.

CUT – Você sempre cita que vocês eram uma turma. Quantos eram?

DUCA – Eu posso citar nomes: eu, o Zé Eli, meu irmão Djalma, o Eduardo (que ninguém conhece por este nome, que é o Bolô), o Fernando Martinelli (que é o Canudo), etc. Essas pessoas sempre estavam juntas e em torno da gente também havia aquele pessoal que se afinava com nossas idéias. Mas basicamente eram essas pessoas.

CUT – Você pegou a 16° SEUNIT. Como foi essa sua entrada no CUT?

DUCA – Em 1975, na Semana do Edson Celestino, a SEUNIT ressuscitou uma programação bem organizada. Acho que foi, de certa maneira, uma das Semanas mais bem organizadas e foi nessa época que a gente começou a participar enfeitando o Bolinha e ajudando em programações culturais.

CUT – Na entrevista do Zé Eli, ele comentou sobre a decoração das aranhas, no Bolinha. Como surgiam essas idéias de temas para a boate?

DUCA – As aranhas foi um dos nossos primeiros trabalhos. No ano do Dinho, o Canudo, pelo fato de ele ter afinidade nessa área artística, começou a ter inúmeras idéias para decorar o Bolinha, com criatividade que nunca se viu. Foram vários temas. Um deles, a sociedade de consumo foi magnífica. No teto havia vários objetos pendurados, representando o consumo. Havia até um para- lama de fusca e umas 80 garrafas de Coca, que até hoje é o maior símbolo da sociedade de consumo. E nas paredes foram pintadas várias mãos tentando pegar os objetos no teto. As aranhas foi a primeira, essa dos produtos a segunda e a terceira foi São Paulo de cabeça pra baixo. Eram caixas de papelão também penduradas no teto, cada uma de um tamanho, simulando prédios da cidade de São Paulo. Era um efeito visual fantástico. A gente começou, com essas idéias, a passar alguma coisa a alguém. Alertar que mesmo coisas “sem importância” poderiam ter um significado mais profundo. Nosso trabalho era sempre feito, bem ou mal, suando ou não, era sempre realizado.

CUT – Voltando ao tema de sua entrada na diretoria do CUT. Conte mais um pouco de como isso ocorreu.

DUCA – O Edson pegou a diretoria durante um ano e depois a diretoria inevitavelmente se dissolveu. O CUT ficou nas mãos -  como o Zé Eli citou -  de “moleques” como éramos chamados por pessoas, que não interessa agora citar nomes. Há sempre o conflito entre o grupo que tá saindo e o que tá entrando. Eles tiveram que passar a bola para os “moleques”. Só que esses “moleques” não eram dóceis, nem alienados, como eles imaginaram. Nós demos muito trabalho para eles, tanto que depois de quatro anos, esse trabalho foi culminar naquele fato que o Zé Eli considera o maior acontecimento da SEUNIT, que é aquela famosa reunião de seis horas e meia.

CUT – O Zé Eli também citou o fato do jornal “Panela de Pressão” e a “Santa Inquisição”. Qual sua opinião sobre esses fatos?

DUCA – “Santa Inquisição” era uma época em que certas pessoas estavam no poder. Não vou lembrar quem fez “Santa Inquisição”, nem aqui nem na Europa na Idade Média, pois estaria dando nomes aos bois. O nome é apropriado, mas as épocas eram diferentes. Ninguém chamava a gente de bruxos e nem queimava a nossa turma. Mas queimaram o nosso trabalho, nossas idéias impressas num papel. E queimaram sem nenhum pudor. Isso foi literalmente feito.

Foram queimados três mil exemplares do “Panela de Pressão”. Ele era um jornal que, se você o pegasse em 1979, ia achar pesado, pois era uma linguagem de Centros Acadêmicos de faculdades de São Paulo. Mas depois de dois anos, se você pegasse o jornal e o comparasse com a linguagem da Folha ou do Estado, esse fato de ser pesado ou não, já não existia, pois os grandes jornais já começavam a adotar uma linguagem mais incisiva; era uma mão de abertura. Eles já falavam de certos assuntos que eram tabus na época de repressão mais pesada. A fogueira que esses exemplares ajudaram a fazer deu pra aquecer o inverno de muita gente. Imagine como era o fogo de três mil exemplares! Em 79, havia muito medo de se falar as coisas e havia também muita pressão. Eu ouvi de uma autoridade de Tambaú certas ameaças que eram difíceis de serem assimiladas na idade que eu tinha. Publicamente, esta é a primeira vez que falo sobre isso, mas, segundo essa autoridade de Tambaú, havia uma prontidão do Exército de Pirassununga para invadir Tambaú. Isso, para um ouvido “ingênuo” em 79, era ameaçador. É lógico que isso não era verdade, mas ouvir isso no gabinete dessa autoridade é muito forte. Não preciso nem contar que autoridade era pois o Legislativo, que eu saiba, não tem gabinete aqui em Tambaú. Pessoas com poder existem em todos os lugares. E com isso você via a repressão de perto. E essa repressão existiu aqui de fato, pois ninguém queima três mil exemplares por engano.

CUT – Você publicou nos 15 anos de CUT um artigo intitulado “Para Ler, Refletir, Criticar, Divulgar e Guardar”. Fale-nos sobre ele.

DUCA -  Nesse trabalho, eu acho que o mais importante é o verbo “guardar”, isto é, se alguém guardou e leu e lê, vai perceber que muitas daquelas perguntas ainda estão no ar. Qual é o sentido do CUT em Tambaú? O que ele fez numa cidade deste tamanho? Por que a SEUNIT acontece nas férias, quando pessoal quer mais é se desligar daquela casa que é a faculdade? Todas estas perguntas valem pra hoje. O CUT não morreu. Ele está no inconsciente coletivo de Tambaú. No frio de julho, tem que ter SEUNIT. Temos que ir tomar um vinho quente no Catiguria...

CUT – Duca, há muito eu tenho uma curiosidade pra saber por que nosso bar se chama Catiguria. De onde veio esse nome? Quando ele nasceu?

DUCA – O Grupo Chásqui, atual Raíces de America, veio tocar na SEUNIT e o Fredinho, um dos integrantes do grupo, vinha e ficava durante toda a Semana. Ele tinha um sotaque gostoso da Ilha de Marajó e uma “marca registrada” para definir algo gostoso. Quando alguma coisa era legal pra ele, ele sempre repetia a palavra “catiguria”. Tudo para ele era catiguria. O bar foi uma ideia de 1977 e quem participou na criação dele foi o Claudio e o Alfredo Rizzatti. Eles fizeram o barzinho onde antes havia aquelas duas árvores na SAT, que agora fizeram o favor de arrancar por que, provavelmente eram muito feias. Ali foi criado o bar, que era um balcãozinho com algumas mesas e chão pra turma sentar. E neste ano o Grupo Chásqui veio pela segunda vez e o Fredinho era a maior conta do bar. Ele bebia muito e chegava numa certa hora da noite, ele começava a falar “catiguria” um atrás do outro. Uma hora ele virou para o balcão, tava o Alfredo e o Cláudio lá dentro e disse: “Mas esse bar é catiguria”. Ele já tava no auge do fogo e todo mundo parou e ficou olhando pro Fredinho. Por que não batizar o bar de catiguria? No dia seguinte, pendurada numa das árvores, já havia uma placa de madeira escrita “Catiguria”.

Apesar de ir pra vários lugares diferentes, a cada ano, ele continua com o mesmo nome. Eu acho importante manter essas tradições. É lógico que cada grupo quer colocar suas ideias a cada ano, mas acho muito importante preservar a história do CUT. Acho também de grande importância essa sua ideia de ir atrás da história, de pessoas que podem contar historias do CUT. É ótima essa busca do passado para se preservar o verdadeiro sentido de cada coisa que existe dentro do CUT.

CUT – Antes de você pegar a diretoria, você era responsável pela parte de propaganda da SEUNIT. Vocês faziam um trabalho de divulgação em todas as cidades da região. Como era essa fase de colaborador ativo, depois a de presidente e vice-presidente? Qual a diferença entre elas?

DUCA -  A diferença era a união do grupo. Apesar de muitos serem contra a formação de diretoria formal, isso funcionava. Na nossa época, o presidencialismo era uma forma de governo militar e a gente era contra. Mas para funcionar tinha que haver separação de cargos e encargos. Essa forma de comando sempre foi discutida, mas com funções separadas havia também responsabilidades separadas. Se houvesse falhas, havia a quem responsabilizar. Chegou a existir um grupo de propaganda e eu era o chefe desse grupo. Esse grupo, como os outros, chegaram a funcionar, pois havia união das pessoas. Você perguntou a diferença entre as fases. Eu apontaria melhor um fator comum: a união. Existem Semanas, ou existiram, que, como não havia diretorias formais, não houve atas de reuniões que deixassem para outros anos, documentos importantes para a historia do CUT. Apontando agora a diferença entre as fases, eu citaria exatamente os cargos dos quais participei. Em cada um havia uma responsabilidade. Era assim comigo e com todos. A gente sabia a quem cobrar as falhas e a quem dar os méritos.

CUT – Como você encara as ultimas Semanas Universitárias em relação aos anos passados?

DUCA – Na última reunião do ano passado, quando se elegeu a atual diretoria, aconteceram coisas que me fazem tachar aquela reunião de “engraçada”, pois foi uma reunião que foi bem até o ultimo minuto. No último instante, quando se pensava haver duas correntes bem definidas para disputar a diretoria, a coisa se dispersou. O grupo que fazia a oposição à diretoria daquele ano não existiu de verdade. Ele só conseguiu se manifestar de maneira pouco produtiva, pichando até as paredes do próprio Catiguria. Eu penso que, quando há algo a dizer, que se diga pela frente. E se você tiver força suficiente para chegar a fazer uma oposição tão forte e formar um grupo que obedeça às regras daquele jogo que está sendo jogado, no caso a SEUNIT, aí sim poderia ser algo produtivo. Mas aquelas pessoas na hora do “vamo-vê”, quando  as atenções se voltaram pra elas, parecia que não havia ninguém ali. Oposição tem que existir, mas deve ser efetiva, sistemática. Até que você consiga estar do lado de quem faz a coisa e sofrer também uma oposição. Eu me afino com muitas das idéias de oposição, mas não é por isso que eu concordo com alguns métodos. Esse tipo de oposição que ocorreu no ano passado, reflete muito a intelectualidade de hoje em dia. Na hora em que o holofote está no palco e se vira para a plateia, ela se levanta, pede o ingresso de volta e sai do teatro.

CUT – Duca, são 25 anos de CUT. O que isso significa pra você? Quais suas expectativas?

DUCA – Eu gostaria que a coisa fosse melhor divulgada, que fizessem mais propaganda. Nunca é demais a propaganda. Tem que ser amplamente divulgado o Jubileu de Prata do CUT. Essa divulgação mostra às pessoas que algo está acontecendo. Sempre foi difícil brigar com a novela das oito da Globo. É difícil brigar com algo que entra nas casas de todos, todos os dias. Tem que ser feita muita propaganda. Se você quer que alguém escute alguma coisa tem que falar mais alto do que essa pessoa já está ouvindo de outros. 25 anos é uma festa. Todos tem que participar dela.

CUT – O que mais te marcou em todos esses anos?

DUCA – Eu acho que me marcavam mais as noites em que nós ficávamos tocando violão e cantando depois que acabava o Bolinha (novamente o Duca dedilhava canções no violão), mas penso que o que mais me marcou foi conhecer o Paulo Vanzolini. Isso foi inesquecível para mim. Fora isso, os teatros também foram marcantes.

CUT – Você sente, hoje, a ousadia dos grupos atuais da SEUNIT?

DUCA – Ousar significa você estar à frente do seu tempo. Você está dizendo aquilo que é pra dizer. Você está na frente no sentido de que é você que tem de dizer. Aí, aparece aquela difícil pergunta de ser respondida: por que sou eu que tenho de ir lá falar? No nosso tempo isso não existia. Esse é o maior fator de desunião. É nesse ponto que as pessoas de hoje não ousam.

CUT – Na sua época foi criado o GTS. O que era?

DUCA – GTS era um grupo de apoio para que pessoas começassem a se interessar pelo CUT. Significava Grupo de Trabalho Secundarista. Foi com surpresa e alegria que eu recebi a noticia que existe em Tambaú algo chamado Grêmio Estudantil. Essas pessoas estão atuando dentro de sua área, que é a escola e um dia poderão estar dentro do CUT. Seria uma outra fase de sua vida, mas que sempre ficaria por cima o propósito que eles têm agora: agir por um ideal...

Ainda com o meu violão e espalhando algumas notas, o Duca chegou ao fim da entrevista. Isto é, eu cheguei ao fim das perguntas, pois, se tivéssemos tempo para contar tudo, mas tudo mesmo, que eu aprendi com esse bate-papo, eu levaria na certa uns 25 anos... E nesse meio tempo mais história ia rolar, mais canções iam tornar-se hinos. Afinal, “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”...

Paulo Rogério B. Rocco

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